quinta-feira, 25 de junho de 2009

O passado de repente saltou-me ao caminho...


Do mais antigo não sabia nada há 25 anos. Eu tinha 15, ele 14, e fomos o primeiro grande amor um do outro. Durou 1 intensíssimo ano e depois seguimos os nossos caminhos. Até ao mês passado.

O outro a seguir nunca desapareceu completamente mas não nos viamos há uns 8 anos e não nos falávamos há uns 4... Reapareceu o mês passado.


O mais recente foi o maior furacão da minha vida e desapareceu como apareceu, sem deixar rasto, há 7 anos. Voltou o mês passado.

No mesmo mês, homens que um dia fizeram parte de mim, da minha vida, do meu acordar, do meu respirar, surgem-me nos caminhos do virtual. Na net nada se perde, tudo se transforma. Estamos todos lá e lá todos nos cruzamos.

Não houve encontros, nem olhos nos olhos, nem mãos a tocarem-se, nem pulsações aceleradas. Apenas posts, mails, fotos paradas, pedidos de amizade.

Depois retomámos o deslizar rotineiro do sossego. Mantêm-se afastados. Não sei o que fui nem quanto fui para eles. Sei o que foram e quanto foram para mim.


Cada um, a possibilidade de um caminho diferente, de vidas alternativas que nunca foram. Cada um, um nome tatuado nas minhas memórias. Não só o nome. Os olhos, os sorrisos, os beijos, longos abraços, longos planos, sonhos que morreram ou que matámos.

Mas eu estou aqui e eles estão aqui. O primeiro amor, artista, o primeiro amante, sobredotado, o primeiro (e único) salto no precipício sem corda, soldado.

Farão parte de mim até ao fim. São meus. E eu deles.








quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Uma voz que canta convoca a terra perdida

Daqui chegou-me uma nostalgia de infância:

Uma voz que canta convoca a terra perdida.
Quase em surdina, evoca os secretos lugares
da infância;
o sítio onde pousavam os pássaros
o quintal cheio de estórias
e - lembras-te?- a tarde em chamas.

A voz murmura:
O exílio é onde nada se recorda de ti
Nada te diz:
sou teu/és meu

O Agualusa talvez pense em Angola, eu penso em Moçambique. Lá, onde tudo me diz: és minha.

A escola onde (acho que) fiz a minha 2ª classe, em Lourenço Marques. Pelo menos, é esta a imagem exacta que tenho nas minhas memórias. Agora chama-se Colégio Barroso.

A feira do pau preto, em Nampula. Não mudou nadinha, era mesmo assim quando por lá passeávamos aos fins-de-semana à tarde.

As árvores de sumauma! Juntávamos os bocados fofos à cara só para os sentir...

E, claro, o mar... Como esquecer o mar de moçambique? Abria-nos os braços e recebia-nos. Aqui, Nacala.

Uma voz que canta convoca a terra perdida...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Apaixonei-me...


Há uns dias descobri esta obra maravilhosa. Ainda encontramos coisas no mundo que nos enchem as medidas e os olhos de espanto maravilhado. Peter Beard tem qualquer coisa de Bruce Chatwin, e foi vizinho de Karen Blixen no Quénia...

A primeira foto é a minha mais preferida de todas. Assim de repente, sem sequer pensar, era capaz de uma loucura monetária para a ter na parede... infelizmente parece que não está à venda...

Todas as obras que pude ver (no site do autor, http://www.peterbeard.com/) me encantaram, mas escolhi algumas que me aceleraram mais o coração e a nostalgia de África... Reproduzo também o pequeno texto sentido com que ele se apresenta...
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When I first went to Kenya in August 1955, I could never have guessed what was going to happen. Kenya's population was roughly five million, with about 100 tribes scattered throughout the endless "wild—deer—ness" - it was authentic, unspoiled, teeming with big game — so enormous it appeared inexhaustible.
Everyone agreed it was too big to be destroyed. Now Kenya's population of over 30 million drains the country's limited and diminishing resources at an amazing rate: surrounding, isolating, and relentlessly pressuring the last pockets of wildlife in denatured Africa.
The beautiful play period has come to an end. Millions of years of evolutionary processes have been destroyed in the blink of an eye.
The Pleistocene is paved over, cannibalism is swallowed up by commercialism, arrows become AK- 47s, colonialism is replaced by the power, the prestige and the corruption of the international aid industry. This is The End Of The Game over and over.
What could possibly be next? Density and stress — aid and AIDS, deep blue computers and Nintendo robots, heart disease and cancer, liposuction and rhinoplasty, digital pets and Tamaguchi toys deliver us into the brave new world.

Peter Beard

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O meu menino é d' oiro

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O meu menino é d'oiro
É d'oiro fino
Não façam caso que é pequenino
O meu menino é d'oiro
D'oiro fagueiro

Hei-de levá-lo no meu veleiro.
Venham aves do céu
Pousar de mansinho
Por sobre os ombros do meu menino
Do meu menino, do meu menino
Venham comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó.

Quantos sonhos ligeiros
p'ra teu sossego
Menino avaro não tenhas medo
Onde fores no teu sonho
Quero ir contigo
Menino de oiro sou teu amigo.

Venham altas montanhas
Ventos do mar
Que o meu menino
Nasceu p'r'amar
Venham comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó.

O meu menino é d'oiro
É d'oiro é de oiro fino ....

Venham altas montanhas
Ventos do mar ....

Hoje também faz alguns anos que descobri, como uma luz, o amor incondicional. Um amor que nos faz querer ser maior, melhor, mais forte, invencível. Que nos faz querer ser a casa e a rua, a terra e o céu, a alegria e a tristeza, a cura, o ombro, o riso, a esperança, a magia. E, no meio disto tudo, a maior felicidade é sempre a nossa...

Obrigada Zeca Afonso. Obrigada Picasso.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Espalhem a Notícia

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Espalhem a notícia
do mistério da delícia
desse ventre
Espalhem a notícia do que é quente
e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse.

Divulguem o encanto
o ventre de que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado.

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
bonita.

A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o.
O ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou.

Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente uma criança.

Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente
da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra
basta, é só
adivinhar o que há mais
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós.

Faz hoje alguns anos que foi assim. A palavra felicidade nunca mais teve o mesmo significado.

Obrigada ao Almada Negreiros e ao Sérgio Godinho.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Tempo Fluvial

De um dos meus poetas preferidos, talvez mesmo O preferido.
Tudo o que escreve é como se fosse para mim, apesar de nunca nos termos sequer cruzado.
Eu sei dele mas ele não sabe de mim.

Sexta-feira, Agosto 15, 2008

Tempo fluvial

Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.

Nuno Júdice

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Coração das Trevas

Foi este livro que deu origem a este blog.

Li-o em cinco dias mas fiquei lá muitos mais. Lá, na solidão, no calor, na exuberância africana... na loucura. Mais uma vez, a loucura à minha volta.

Li-o com o Marlon Brando na cabeça. Dizem que se inspirou neste Kurtz para a sua fabulosa personagem de Apocalipse Now. Agora entendo-o muito melhor.

Termina assim:

"... o calmo caminho das águas, que leva aos confins da terra, corria escuro sob um céu sombrio - dir-se-ia que a levar-nos ao coração de infinitas trevas."


quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Loucura?

Ele sonha com um caminho claro, iluminado por uma doce luz azul. A floresta densa espreita dos dois lados, mas parece quase distraída. Há um estranho candeeiro pendurado do lado direito, que parece querer acompanhá-lo. Ao fundo as nuvens escurecem o céu. Mas ele acha que consegue vencer a angústia e atravessar para o outro lado. O da luz.

A floresta acordou enloquecida. Cresce e agiganta-se por cima dele. Agita-se em vendaval. Tenta absorvê-lo para a escuridão e o candeeiro-companheiro desapareceu. A suave luz azul também. Tudo se desfoca e ele cambaleia.

O azul rebenta em ondas poderosas que hão-de chegar a ele. Já chegaram às árvores, desfizeram-nas em pó. Ele será o próximo. Sente-se perdido e recua, recua, recua, para o fundo do sonho. Onde está a porta?

Fechou a porta atrás de si e respira fundo. Olha a superfície lisa do mar (ah, o azul), a pequena árvore amigável e quase sente paz. Tenta ignorar o abismo negro lá ao fundo, a angústia. Pelo menos por agora, parece bem longe.

Isaac Liberato nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1906, filho único de um velho e rico negociante. Viveu isolado até os oito anos, longe do convívio com outras crianças. Aos nove anos perdeu o pai, ficando sob os cuidados da mãe.
Aos dezenove anos, realizando um sonho de menino, ingressou na Marinha Mercante como radio-telegrafista, fazendo inúmeras viagens nas rotas internacionais.
No intervalo entre essas viagens namorou uma vizinha loura e bonita. Em 1930, voltando de uma viagem à Europa, casou-se com esta jovem. Três meses após o casamento rompe com a esposa. Em Dezembro do mesmo ano é internado no Hospital da Praia Vermelha, com problemas de saúde mental.

Dezesseis anos depois, Isaac começou a frequentar o recém-inaugurado atelier de pintura da Secção de Terapêutica Ocupacional no Hospital de Engenho de Dentro. Isaac é sempre o primeiro a chegar e procura logo o material para iniciar os seus trabalhos, demonstrando grande interesse e prazer em pintar, principalmente telas a óleo. Pintava lentamente e gostava de tocar ao piano, de ouvido, músicas que lembravam Debussy.
A primeira surpresa que a pintura de Isaac nos traz é a flagrante diferença entre a sua linguagem verbal e sua linguagem plástica. Ele raramente constrói proposições – a sua linguagem é agramatical e cheia de neologismos. Entretanto, através da linguagem plástica, narra uma história diretamente compreensível e concatenada, que jamais verbalizaria.
Desde o início, as suas pinturas já prenunciavam o desenvolvimento artístico que ele alcançaria ao longo do tempo, como fica evidente nas paisagens onde se vê a sua procura em reter os reflexos mutáveis da luz e descobrir as nuances das cores.
Entre as diversas temáticas que aparecem na sua pintura destaca-se constantemente a figura da mulher sob mil formas.
No dia 6 de julho de 1966, Isaac chegou ao atelier, como de costume, por volta das oito e meia. Na sua terceira pintura, retrata a última imagem da mulher amada. Pintura inacabada. Isaac morre com o pincel na mão, vítima de enfarte do miocárdio.



segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Angústia Nocturna


















Nasce-me uma angústia de mansinho, nestas horas adormecidas da noite dentro. Estou sozinha, como nos sonhos, e imagino o mundo todo vazio e escuro lá fora. Não sei se há futuro, se há caminhos, se vai voltar a haver luz. Caminho nas ruas desertas e sinto o meu próprio coração quase parado. É a angústia que cresce, não uma angústia de medo, mas uma angústia de tristeza e de lágrimas. Falta-me a mão quente e pequena, mas firme, da minha irmã. Espero-a ao virar de cada esquina, mas sei que não virá. Partiu e não voltará. Mas deve estar à minha espera, aí algures, não estás? Mais tarde ou mais cedo saberei.
(obrigado Hopper, pelas imagens, é mesmo ali que estou quando a angústia chega)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Lá ao fundo, o Bugio

O Bugio é o meu farol. Toma conta do meu rio, do meu mar e da minha cidade. Dos meus barcos e dos meus surfistas. Das minhas andorinhas e dos meus peixinhos. Dos meus viajantes, dos meus namorados, dos meus sonhadores. Guarda a minha coroa de princesa que não quero que ninguém veja. Guarda as minhas cartas secretas, as minhas flores secas dentro dos meus livros. Guarda os meus poemas e os meus poetas. Guarda os meus sonhos e já não tem espaço para mais. Mas cabe sempre mais um. Alguns já me esqueci deles, outros passaram de prazo. Mas o meu farol guarda-os. E toma conta de mim, quando a noite se torna escura de mais. Ilumina-me.


PS - Obrigada à "avidaempinceladas.blogspot.com" pela imagem.

Junto ao mar


Foi difícil encontrar imagens como as que trago dentro dos olhos. Calhou passar hoje à beira-mar, ali ao pé de Oeiras, numa hora perfeita. O sol, a temperatura, a brisa, o azul do mar... maravilhoso. Disse "Ao pé do mar o tempo está sempre melhor". Alguém riu e respondeu "Achas? Nem sempre...".

"Pois, se calhar eu é que estou sempre melhor ao pé do mar". Sempre.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Também me vi aqui...


Aqui levantou-se um vento frio de Outono e fui buscar a capa para proteger os ombros. Não gosto nada de frio... Soltei o cabelo para tapar o pescoço mas ele voa, revolto.

Levanto os olhos e à minha frente estende-se um emaranhado de caminhos. Sinuosos, desconhecidos, misteriosos. Tenho de escolher, é isso? Por onde?...

Também estou aqui...

Também gostei destas. Sou eu numa praia que não sei onde é, num dia que nunca mais esqueci. Um dia chamado felicidade. Tudo estava no seu lugar certo, tudo fazia sentido e o mundo só podia ser perfeito.