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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Coração das Trevas

Foi este livro que deu origem a este blog.

Li-o em cinco dias mas fiquei lá muitos mais. Lá, na solidão, no calor, na exuberância africana... na loucura. Mais uma vez, a loucura à minha volta.

Li-o com o Marlon Brando na cabeça. Dizem que se inspirou neste Kurtz para a sua fabulosa personagem de Apocalipse Now. Agora entendo-o muito melhor.

Termina assim:

"... o calmo caminho das águas, que leva aos confins da terra, corria escuro sob um céu sombrio - dir-se-ia que a levar-nos ao coração de infinitas trevas."


quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Loucura?

Ele sonha com um caminho claro, iluminado por uma doce luz azul. A floresta densa espreita dos dois lados, mas parece quase distraída. Há um estranho candeeiro pendurado do lado direito, que parece querer acompanhá-lo. Ao fundo as nuvens escurecem o céu. Mas ele acha que consegue vencer a angústia e atravessar para o outro lado. O da luz.

A floresta acordou enloquecida. Cresce e agiganta-se por cima dele. Agita-se em vendaval. Tenta absorvê-lo para a escuridão e o candeeiro-companheiro desapareceu. A suave luz azul também. Tudo se desfoca e ele cambaleia.

O azul rebenta em ondas poderosas que hão-de chegar a ele. Já chegaram às árvores, desfizeram-nas em pó. Ele será o próximo. Sente-se perdido e recua, recua, recua, para o fundo do sonho. Onde está a porta?

Fechou a porta atrás de si e respira fundo. Olha a superfície lisa do mar (ah, o azul), a pequena árvore amigável e quase sente paz. Tenta ignorar o abismo negro lá ao fundo, a angústia. Pelo menos por agora, parece bem longe.

Isaac Liberato nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1906, filho único de um velho e rico negociante. Viveu isolado até os oito anos, longe do convívio com outras crianças. Aos nove anos perdeu o pai, ficando sob os cuidados da mãe.
Aos dezenove anos, realizando um sonho de menino, ingressou na Marinha Mercante como radio-telegrafista, fazendo inúmeras viagens nas rotas internacionais.
No intervalo entre essas viagens namorou uma vizinha loura e bonita. Em 1930, voltando de uma viagem à Europa, casou-se com esta jovem. Três meses após o casamento rompe com a esposa. Em Dezembro do mesmo ano é internado no Hospital da Praia Vermelha, com problemas de saúde mental.

Dezesseis anos depois, Isaac começou a frequentar o recém-inaugurado atelier de pintura da Secção de Terapêutica Ocupacional no Hospital de Engenho de Dentro. Isaac é sempre o primeiro a chegar e procura logo o material para iniciar os seus trabalhos, demonstrando grande interesse e prazer em pintar, principalmente telas a óleo. Pintava lentamente e gostava de tocar ao piano, de ouvido, músicas que lembravam Debussy.
A primeira surpresa que a pintura de Isaac nos traz é a flagrante diferença entre a sua linguagem verbal e sua linguagem plástica. Ele raramente constrói proposições – a sua linguagem é agramatical e cheia de neologismos. Entretanto, através da linguagem plástica, narra uma história diretamente compreensível e concatenada, que jamais verbalizaria.
Desde o início, as suas pinturas já prenunciavam o desenvolvimento artístico que ele alcançaria ao longo do tempo, como fica evidente nas paisagens onde se vê a sua procura em reter os reflexos mutáveis da luz e descobrir as nuances das cores.
Entre as diversas temáticas que aparecem na sua pintura destaca-se constantemente a figura da mulher sob mil formas.
No dia 6 de julho de 1966, Isaac chegou ao atelier, como de costume, por volta das oito e meia. Na sua terceira pintura, retrata a última imagem da mulher amada. Pintura inacabada. Isaac morre com o pincel na mão, vítima de enfarte do miocárdio.



segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Angústia Nocturna


















Nasce-me uma angústia de mansinho, nestas horas adormecidas da noite dentro. Estou sozinha, como nos sonhos, e imagino o mundo todo vazio e escuro lá fora. Não sei se há futuro, se há caminhos, se vai voltar a haver luz. Caminho nas ruas desertas e sinto o meu próprio coração quase parado. É a angústia que cresce, não uma angústia de medo, mas uma angústia de tristeza e de lágrimas. Falta-me a mão quente e pequena, mas firme, da minha irmã. Espero-a ao virar de cada esquina, mas sei que não virá. Partiu e não voltará. Mas deve estar à minha espera, aí algures, não estás? Mais tarde ou mais cedo saberei.
(obrigado Hopper, pelas imagens, é mesmo ali que estou quando a angústia chega)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Também me vi aqui...


Aqui levantou-se um vento frio de Outono e fui buscar a capa para proteger os ombros. Não gosto nada de frio... Soltei o cabelo para tapar o pescoço mas ele voa, revolto.

Levanto os olhos e à minha frente estende-se um emaranhado de caminhos. Sinuosos, desconhecidos, misteriosos. Tenho de escolher, é isso? Por onde?...