sábado, 18 de junho de 2011

Não sei o que dizer


não sei o que dizer sobre hoje
que a magia se repete e se reinventa
na penumbra avermelhada
e os olhos brilham-nos
iluminados por essa corrente de intensidade estrelar
que nos percorre as veias como autoestradas na noite
a velocidades proibidas
e intensidades (quase) insuportáveis

o amor morre de amor
e o desejo renasce em cada vez que morremos de amor
nos beijos engolimo-nos
abrimo-nos, rasgamo-nos
nos beijos pomos o desespero da fusão que na verdade não acontece
e quando tu entras em mim
quieto, parado, imaterial
e ficamos em gravidade zero, entre o céu e a terra
eu sinto a alma a esvair-se de mim
a partir ao encontro do seu destino
do qual não faço parte
porque sou demasiado pesada, física, material
não voo como ela, não flutuo, não atravesso as paredes do tempo e do espaço
não circulo nesse mundo de almas a que ela aspira, para onde me foge
a encontrar-se com a tua
e nós ficamos cá em baixo
mortos, sem alma
dois corpos no silêncio
do que não pode ser dito
nem perguntado nem gritado

abre-se uma tela gigante nos meus olhos
enquanto as tuas mãos me percorrem devagar
uma bicicleta que desce a rua
um baloiço que sobe às nuvens
uma filigrana de pássaros e plantas em cores e dourados
sorrisos que o tempo suspendeu há tempo demais
mas que insistem em voltar uma e outra vez

tu abraças-me num círculo apertado
e eu não sei porque é que parece que há um infinito entre nós
no meio de nós
colo-me a ti, colo a minha mão ao teu coração com força
procuro o segredo que há-de abrir todas as portas
convoco toda a energia que me habita
quero explodir em milhões de estrelas que caiam sobre ti
e ao caírem na areia desta ilha
onde subitamente nos encontramos, frente ao mar
escrevam à tua volta, em letras de fogo
a resposta que há-de ser o caminho

(on 2010,Nov,10)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O passado de repente saltou-me ao caminho...


Do mais antigo não sabia nada há 25 anos. Eu tinha 15, ele 14, e fomos o primeiro grande amor um do outro. Durou 1 intensíssimo ano e depois seguimos os nossos caminhos. Até ao mês passado.

O outro a seguir nunca desapareceu completamente mas não nos viamos há uns 8 anos e não nos falávamos há uns 4... Reapareceu o mês passado.


O mais recente foi o maior furacão da minha vida e desapareceu como apareceu, sem deixar rasto, há 7 anos. Voltou o mês passado.

No mesmo mês, homens que um dia fizeram parte de mim, da minha vida, do meu acordar, do meu respirar, surgem-me nos caminhos do virtual. Na net nada se perde, tudo se transforma. Estamos todos lá e lá todos nos cruzamos.

Não houve encontros, nem olhos nos olhos, nem mãos a tocarem-se, nem pulsações aceleradas. Apenas posts, mails, fotos paradas, pedidos de amizade.

Depois retomámos o deslizar rotineiro do sossego. Mantêm-se afastados. Não sei o que fui nem quanto fui para eles. Sei o que foram e quanto foram para mim.


Cada um, a possibilidade de um caminho diferente, de vidas alternativas que nunca foram. Cada um, um nome tatuado nas minhas memórias. Não só o nome. Os olhos, os sorrisos, os beijos, longos abraços, longos planos, sonhos que morreram ou que matámos.

Mas eu estou aqui e eles estão aqui. O primeiro amor, artista, o primeiro amante, sobredotado, o primeiro (e único) salto no precipício sem corda, soldado.

Farão parte de mim até ao fim. São meus. E eu deles.








quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Uma voz que canta convoca a terra perdida

Daqui chegou-me uma nostalgia de infância:

Uma voz que canta convoca a terra perdida.
Quase em surdina, evoca os secretos lugares
da infância;
o sítio onde pousavam os pássaros
o quintal cheio de estórias
e - lembras-te?- a tarde em chamas.

A voz murmura:
O exílio é onde nada se recorda de ti
Nada te diz:
sou teu/és meu

O Agualusa talvez pense em Angola, eu penso em Moçambique. Lá, onde tudo me diz: és minha.

A escola onde (acho que) fiz a minha 2ª classe, em Lourenço Marques. Pelo menos, é esta a imagem exacta que tenho nas minhas memórias. Agora chama-se Colégio Barroso.

A feira do pau preto, em Nampula. Não mudou nadinha, era mesmo assim quando por lá passeávamos aos fins-de-semana à tarde.

As árvores de sumauma! Juntávamos os bocados fofos à cara só para os sentir...

E, claro, o mar... Como esquecer o mar de moçambique? Abria-nos os braços e recebia-nos. Aqui, Nacala.

Uma voz que canta convoca a terra perdida...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Apaixonei-me...


Há uns dias descobri esta obra maravilhosa. Ainda encontramos coisas no mundo que nos enchem as medidas e os olhos de espanto maravilhado. Peter Beard tem qualquer coisa de Bruce Chatwin, e foi vizinho de Karen Blixen no Quénia...

A primeira foto é a minha mais preferida de todas. Assim de repente, sem sequer pensar, era capaz de uma loucura monetária para a ter na parede... infelizmente parece que não está à venda...

Todas as obras que pude ver (no site do autor, http://www.peterbeard.com/) me encantaram, mas escolhi algumas que me aceleraram mais o coração e a nostalgia de África... Reproduzo também o pequeno texto sentido com que ele se apresenta...
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When I first went to Kenya in August 1955, I could never have guessed what was going to happen. Kenya's population was roughly five million, with about 100 tribes scattered throughout the endless "wild—deer—ness" - it was authentic, unspoiled, teeming with big game — so enormous it appeared inexhaustible.
Everyone agreed it was too big to be destroyed. Now Kenya's population of over 30 million drains the country's limited and diminishing resources at an amazing rate: surrounding, isolating, and relentlessly pressuring the last pockets of wildlife in denatured Africa.
The beautiful play period has come to an end. Millions of years of evolutionary processes have been destroyed in the blink of an eye.
The Pleistocene is paved over, cannibalism is swallowed up by commercialism, arrows become AK- 47s, colonialism is replaced by the power, the prestige and the corruption of the international aid industry. This is The End Of The Game over and over.
What could possibly be next? Density and stress — aid and AIDS, deep blue computers and Nintendo robots, heart disease and cancer, liposuction and rhinoplasty, digital pets and Tamaguchi toys deliver us into the brave new world.

Peter Beard