quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Uma voz que canta convoca a terra perdida

Daqui chegou-me uma nostalgia de infância:

Uma voz que canta convoca a terra perdida.
Quase em surdina, evoca os secretos lugares
da infância;
o sítio onde pousavam os pássaros
o quintal cheio de estórias
e - lembras-te?- a tarde em chamas.

A voz murmura:
O exílio é onde nada se recorda de ti
Nada te diz:
sou teu/és meu

O Agualusa talvez pense em Angola, eu penso em Moçambique. Lá, onde tudo me diz: és minha.

A escola onde (acho que) fiz a minha 2ª classe, em Lourenço Marques. Pelo menos, é esta a imagem exacta que tenho nas minhas memórias. Agora chama-se Colégio Barroso.

A feira do pau preto, em Nampula. Não mudou nadinha, era mesmo assim quando por lá passeávamos aos fins-de-semana à tarde.

As árvores de sumauma! Juntávamos os bocados fofos à cara só para os sentir...

E, claro, o mar... Como esquecer o mar de moçambique? Abria-nos os braços e recebia-nos. Aqui, Nacala.

Uma voz que canta convoca a terra perdida...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Apaixonei-me...


Há uns dias descobri esta obra maravilhosa. Ainda encontramos coisas no mundo que nos enchem as medidas e os olhos de espanto maravilhado. Peter Beard tem qualquer coisa de Bruce Chatwin, e foi vizinho de Karen Blixen no Quénia...

A primeira foto é a minha mais preferida de todas. Assim de repente, sem sequer pensar, era capaz de uma loucura monetária para a ter na parede... infelizmente parece que não está à venda...

Todas as obras que pude ver (no site do autor, http://www.peterbeard.com/) me encantaram, mas escolhi algumas que me aceleraram mais o coração e a nostalgia de África... Reproduzo também o pequeno texto sentido com que ele se apresenta...
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When I first went to Kenya in August 1955, I could never have guessed what was going to happen. Kenya's population was roughly five million, with about 100 tribes scattered throughout the endless "wild—deer—ness" - it was authentic, unspoiled, teeming with big game — so enormous it appeared inexhaustible.
Everyone agreed it was too big to be destroyed. Now Kenya's population of over 30 million drains the country's limited and diminishing resources at an amazing rate: surrounding, isolating, and relentlessly pressuring the last pockets of wildlife in denatured Africa.
The beautiful play period has come to an end. Millions of years of evolutionary processes have been destroyed in the blink of an eye.
The Pleistocene is paved over, cannibalism is swallowed up by commercialism, arrows become AK- 47s, colonialism is replaced by the power, the prestige and the corruption of the international aid industry. This is The End Of The Game over and over.
What could possibly be next? Density and stress — aid and AIDS, deep blue computers and Nintendo robots, heart disease and cancer, liposuction and rhinoplasty, digital pets and Tamaguchi toys deliver us into the brave new world.

Peter Beard

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O meu menino é d' oiro

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O meu menino é d'oiro
É d'oiro fino
Não façam caso que é pequenino
O meu menino é d'oiro
D'oiro fagueiro

Hei-de levá-lo no meu veleiro.
Venham aves do céu
Pousar de mansinho
Por sobre os ombros do meu menino
Do meu menino, do meu menino
Venham comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó.

Quantos sonhos ligeiros
p'ra teu sossego
Menino avaro não tenhas medo
Onde fores no teu sonho
Quero ir contigo
Menino de oiro sou teu amigo.

Venham altas montanhas
Ventos do mar
Que o meu menino
Nasceu p'r'amar
Venham comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino no meu trenó.

O meu menino é d'oiro
É d'oiro é de oiro fino ....

Venham altas montanhas
Ventos do mar ....

Hoje também faz alguns anos que descobri, como uma luz, o amor incondicional. Um amor que nos faz querer ser maior, melhor, mais forte, invencível. Que nos faz querer ser a casa e a rua, a terra e o céu, a alegria e a tristeza, a cura, o ombro, o riso, a esperança, a magia. E, no meio disto tudo, a maior felicidade é sempre a nossa...

Obrigada Zeca Afonso. Obrigada Picasso.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Espalhem a Notícia

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Espalhem a notícia
do mistério da delícia
desse ventre
Espalhem a notícia do que é quente
e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse.

Divulguem o encanto
o ventre de que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado.

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
bonita.

A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o.
O ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou.

Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente uma criança.

Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente
da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra
basta, é só
adivinhar o que há mais
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós.

Faz hoje alguns anos que foi assim. A palavra felicidade nunca mais teve o mesmo significado.

Obrigada ao Almada Negreiros e ao Sérgio Godinho.