sábado, 22 de outubro de 2011

Diz-me...



queria tanto ir descansar, fechar os olhos e afinal não consegui
a insónia é um inimigo terrível porque se disfarça de amigo
parece que até nos faz bem, este silêncio calmo feito de meia luz e meias sombras
parece que somos mais verdadeiros, mais puros, na solidão da noite, em que ninguém nos julga
em que os problemas não nos encontram e até as lágrimas secam
os olhos sofrem com esta vigília forçada, só querem descanso, mas obedecem e continuam a olhar, a ler e a engolir o mundo
é a cabeça que nunca pára e obriga os operários do corpo a turnos sucessivos sem folgas
um dia haverá consequências, mas não agora, não esta noite


esta é uma noite atravessada pela poesia como todas as noites de insónia
quem senão a poesia poderia preencher este vazio?
quem senão a poesia nos une a vozes distantes espalhadas pelo mundo ao alcance de uma autoestrada imaginária em que veiculos nocturnos, velozes como a luz, pequenos pontos brilhantes na escuridão, nos levam ao este e ao oeste, ao norte e ao sul mais distantes e inimaginados?
aonde encontramos tantas almas-quase-gémeas, também acordadas na noite e na madrugada, também em busca da poesia perfeita, em busca do sentido do sofrimento e da força do amor, em busca de uma estrela que mostre o caminho e nos faça acreditar que vale a pena isto tudo a que chamamos viver


nessa busca cruzei-me com o jorge luis borges que me deixou este poema na cadeira em que me sento a olhar a noite
deixo-o agora nesta janela onde sei que virás procurar-me quando a noite tiver partido e tu chegares com a luz do dia
mais um dia terá passado e outro se apresenta às nossas mãos
temo que seja mais um domingo para deixar desfazer lentamente entre os ponteiros do relógio enquanto nos deixamos ser vividos pelo dia (que é o contrário de vivermos o dia)
será também o ultimo domingo dos meus x anos mas que interessa essa contabilidade agora? quantos domingos já vivi? quantos bons quantos maus quantos vazios? quantos me faltam?
somos tão pequenos enquanto o universo continua a expandir-se para lá das fronteiras do impossivel
diz-me por favor qual é o céu que não tem o calor do teu olhar



Diz-me por favor onde não estás em que lugar posso não te ver,
onde posso dormir sem te lembrar e onde relembrar sem que me doa.
Diz-me por favor onde posso caminhar sem encontrar as tuas pegadas,
onde posso correr sem que te veja e onde descansar com a minha tristeza.
Diz-me por favor qual é o céu que não tem o calor do teu olhar
e qual é o sol que tem luz apenas e não a sensação de que me chamas.
Diz-me por favor qual é o lugar em que não deixaste a tua presença.
Diz-me por favor onde no meu travesseiro não está escondida uma lembrança tua.
Diz-me por favor qual é a noite em que não virás velar os meus sonhos.
Que não posso viver porque te espero e não posso morrer porque te amo.

Jorge Luis Borges

(on 2011, set, 25)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Em cada dia amor



em cada dia de verão amor
em que acordas e a luz intensa se reflecte nos teus olhos escuros
e o calor te roça a pele morena do peito
e tu admites com um suspiro de prazer
que pode ser um dia feliz

em cada dia de inverno amor
em que o som da chuva te acorda como música
e as nuvens escuras lá fora te põem sombras no relevo do corpo
e tu admites com um suspiro de bem estar
que pode ser um dia equilibrado

em cada dia de primavera amor
em que o cheiro das árvores em flor te acorda com um sorriso
e a natureza em renascimento te retesa os músculos de expectativa
e tu admites com um suspiro de energia incontida
que pode ser um dia de conquista

em cada dia de outono amor
em que o rio se agita de madrugada quando chegas ao cais
e o vento vindo de tão longe te arrepia os poros
e tu admites com um suspiro de segurança
que pode ser um dia de estabilidade

em cada um desses dias amor
em que acordas para o mundo e suspiras
e admites que é possível viver longe de mim

em que nas manhãs de verão amor
não passas a mão ao de leve pelo suor da minha pele adormecida
em que nas manhãs de inverno amor
não colas ao meu corpo o calor urgente do teu
em que nas manhãs de primavera amor
não te alimentas do meu sorriso apaixonado quando te olho ao acordar
em que nas manhãs de outono amor
não me prometes o mundo num olhar profundo

em cada momento que vives amor
e a saudade da minha voz não te tolhe
nem a dor da minha ausência te paralisa
nem a memória do meu corpo te constrange
nem a recordação do meu riso te faz chorar

em cada manhã dessas amor
eu desapareço um pouco mais no horizonte do sonho
eu afasto-me um pouco mais no mar do esquecimento
eu dissolvo-me um pouco mais na bruma do futuro

eu sou cada vez mais e maior
um esquecimento abandonado
no labirinto de altos muros cinzentos
da tua realidade
onde suspiras em cada manhã, confortável
e admites que podes viver mais um dia
sem mim
(on 2011, Mai, 21)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Dare to Dream


Dare to dream of far off lands,
Dream of deserts, covered in sand.
Dream of rainforests, trees high above
Dream of finding your one true love.

Dare to dream of lies or the truth,
Dream of never losing your youth.
Dream of battles, dream of a spark.
Dream of light, a light in the dark.

Dare to dream of fighting and sadness,
Dream of men, succumbed to madness.
Dream of warmth and heat and flame,
Dream that your life is just a game.

Dare to dream of hate and mistrust,
Dream of all that’s true and just.
Dream of drowning, drowning in the sea,
Dare to dream of dreaming, yes dare to dream with me.

Lexi Smith

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Os sonhos que escrevemos

hoje estou aqui sentada ao pé da janela aberta
passam as horas lá fora cheias de luz, já é verão
eu sozinha a trabalhar, a traduzir
passam as horas cá dentro, no fundo de mim, cheias de sombra
é o meu futuro que não consigo traduzir
que língua falam os sentimentos
a dor
a esperança e o desalento
a angústia, a impotência
que língua fala a força que não tenho
que língua fala a coragem que não tens
de sonhar
que língua está por inventar que nos una na vida
como nos corpos e nos espíritos já nos uniu
que dicionário usar para te abrir
que fórmulas ancestrais escrever sem lhes conhecer o significado
só à espera que te façam chegar
com os sonhos que escrevemos
traduzidos
pelo teu amor
em realidade

(on 2011,Jun,23)

sábado, 25 de junho de 2011

Que dias são

que dias são estes que me entram pela janela aberta ao calor

imagens longínquas e de repente tão nítidas que me surgem no vazio

como filmes de 8 mm em telas de pano esvoaçante penduradas na memória

há cheiros que atravessam o espaço e sons, sons antigos que sobreviveram

há risos e olhares que se cruzam em avenidas de terra batida e árvores de flores vermelhas


à minha frente flores árvores jardins

pés nus na erva molhada

corpo que rebola nas encostas escaldantes sem ligar à velocidade

o mundo inteiro roda na minha cabeça

volto a ser todas as que fui porque já não sei qual sou qual serei


queria abrir a janela e voar

pegar numa mochila e partir

sentar-me ao volante numa fuga sem fim

queria que o ar quente abrisse oasis na estrada

areia areia sem fim pegadas e mais pegadas

e abrir os olhos e sentir neles o azul líquido do mar

ver a vida translúcida de sonhos e felicidade

como só naquela idade só naquela


que dias são estes (agora) que me entram pela janela aberta ao calor

e me prometem portas que nunca abrem e janelas inacessíveis

que dias são


(on today)