queria tanto ir descansar, fechar os olhos e afinal não consegui
a insónia é um inimigo terrível porque se disfarça de amigo
parece que até nos faz bem, este silêncio calmo feito de meia luz e meias sombras
parece que somos mais verdadeiros, mais puros, na solidão da noite, em que ninguém nos julga
em que os problemas não nos encontram e até as lágrimas secam
os olhos sofrem com esta vigília forçada, só querem descanso, mas obedecem e continuam a olhar, a ler e a engolir o mundo
é a cabeça que nunca pára e obriga os operários do corpo a turnos sucessivos sem folgas
um dia haverá consequências, mas não agora, não esta noite
esta é uma noite atravessada pela poesia como todas as noites de insónia
quem senão a poesia poderia preencher este vazio?
quem senão a poesia nos une a vozes distantes espalhadas pelo mundo ao alcance de uma autoestrada imaginária em que veiculos nocturnos, velozes como a luz, pequenos pontos brilhantes na escuridão, nos levam ao este e ao oeste, ao norte e ao sul mais distantes e inimaginados?
aonde encontramos tantas almas-quase-gémeas, também acordadas na noite e na madrugada, também em busca da poesia perfeita, em busca do sentido do sofrimento e da força do amor, em busca de uma estrela que mostre o caminho e nos faça acreditar que vale a pena isto tudo a que chamamos viver
nessa busca cruzei-me com o jorge luis borges que me deixou este poema na cadeira em que me sento a olhar a noite
deixo-o agora nesta janela onde sei que virás procurar-me quando a noite tiver partido e tu chegares com a luz do dia
mais um dia terá passado e outro se apresenta às nossas mãos
temo que seja mais um domingo para deixar desfazer lentamente entre os ponteiros do relógio enquanto nos deixamos ser vividos pelo dia (que é o contrário de vivermos o dia)
será também o ultimo domingo dos meus
somos tão pequenos enquanto o universo continua a expandir-se para lá das fronteiras do impossivel
diz-me por favor qual é o céu que não tem o calor do teu olhar
onde posso dormir sem te lembrar e onde relembrar sem que me doa.
onde posso correr sem que te veja e onde descansar com a minha tristeza.
Diz-me por favor qual é o céu que não tem o calor do teu olhar
e qual é o sol que tem luz apenas e não a sensação de que me chamas.
Diz-me por favor qual é o lugar em que não deixaste a tua presença.
Diz-me por favor onde no meu travesseiro não está escondida uma lembrança tua.
Diz-me por favor qual é a noite em que não virás velar os meus sonhos.
Que não posso viver porque te espero e não posso morrer porque te amo.
(on 2011, set, 25)




