
que dias são estes que me entram pela janela aberta ao calor
imagens longínquas e de repente tão nítidas que me surgem no vazio
como filmes de 8 mm em telas de pano esvoaçante penduradas na memória
há cheiros que atravessam o espaço e sons, sons antigos que sobreviveram
há risos e olhares que se cruzam em avenidas de terra batida e árvores de flores vermelhas
à minha frente flores árvores jardins
pés nus na erva molhada
corpo que rebola nas encostas escaldantes sem ligar à velocidade
o mundo inteiro roda na minha cabeça
volto a ser todas as que fui porque já não sei qual sou qual serei
queria abrir a janela e voar
pegar numa mochila e partir
sentar-me ao volante numa fuga sem fim
queria que o ar quente abrisse oasis na estrada
areia areia sem fim pegadas e mais pegadas
e abrir os olhos e sentir neles o azul líquido do mar
ver a vida translúcida de sonhos e felicidade
como só naquela idade só naquela
que dias são estes (agora) que me entram pela janela aberta ao calor
e me prometem portas que nunca abrem e janelas inacessíveis
que dias são
(on today)
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